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Um bando de loucos
- Ali tem um bando de louco – dizem eles. Louco pelo Corinthians. Quem não vive essa paixão, muitas vezes se acha no direito de desmerecê-la. Dizem que isso é coisa de quem não tem o que fazer, que isso não é vida. Muitos que ali estavam largaram mulher e filhos em casa, deixaram o conforto do seu cobertor quente para tomar chuva na madrugada fria de São Paulo. Mas eles respondem aos seus críticos. - Àqueles que acham que é pouco, eu vivo por ti, Corinthians – retrucam. Loucura? Sim. Eles são loucos. Passam noites em claro para comprar um ingresso e ver o seu time jogar. Isso é paixão, devoção, estado de espírito. Não há como medir o sentimento de um torcedor pelo seu time do coração. No último domingo fui até o Parque São Jorge comprar meu ingresso para a final da Copa do Brasil. Ou melhor, tentar comprar. Cheguei às 4h da manhã, a fila já era quilométrica. Ao ver aquele bando de loucos, tive certeza que não conseguiria ingresso, mas por teimosia fiquei, assim como fizera inúmeras outras vezes, e dessa vez, assim como das outras, saí de mãos vazias. Puto com a máfia dos cambistas, com a ineficácia da Policia Militar, com o descaso dos orientadores, fui embora. Mas por um outro lado estava feliz. Sim, feliz por presenciar durante onze horas momentos de comoção por um time de futebol. Não existe nada mais democrático que um jogo de futebol. Do bêbado sem camisa, trêmulo de frio, que recusa resgate médico para não perder o seu ingresso, ao empresário, todos ali vivem o mesmo sentimento, sofrem pelo Corinthians. Assim como sofreram com a queda para a segunda divisão. Mas o futebol tem dessas coisas que ninguém consegue explicar. Quem imaginaria que essa massa, que há seis meses chorava o rebaixamento, estaria por cima novamente em tão pouco? Como explicar a possibilidade do corintiano chegar ao paraíso enquanto ainda vive a quinta rodada do inferno? Não tem explicação. Isso é o futebol. Enfim, passei horas e horas, fui questionado por amigos e familiares após a longa jornada. Você é louco! diziam eles. Bom, pelo menos assim você deve ter aprendido uma lição - concluíam. Bom, a todos que me questionaram/criticaram, sim, eu aprendi a lição. Da próxima vez chego na bilheteria à meia-noite e não mais às 4 da madrugada. Vai Corinthians!!! Vou cantar pro timão ganhar
Novo hit da Fiel torcida corintiana inspirada na música “Não quero dinheiro” do genial Tim Maia.
Escrito por Danilo Neves às 15h03
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Noventa minutos de emoção
Comparo uma partida de futebol a uma peça de teatro. Durante noventa minutos, divididos em dois atos, 22 personagens se revezam nos papéis principais da trama. Temos os coadjuvantes, os heróis e vilões, mas ninguém tem papel fixo, ou pelo menos não deveriam ter. Os atores vão trocando de papéis a cada minuto. Os mocinhos viram bandidos a cada falha cometida
Foi assim no Maracanã na última quarta-feira. Sob os olhares atentos de mais de 70 mil espectadores, Fluminense e São Paulo fizeram uma dessas partidas que ficarão para sempre nos anais da dramatur... digo, do futebol brasileiro. No início da partida, após um bate-rebate na área são-paulina, Alex Silva, zagueiro de Seleção e nome praticamente certo na lista de convocados para a Olimpíada, vacila e deixa Cícero subir e ajeitar para Washington marcar. Podíamos aí já ter um nome para o papel de vilão. Mas nem toda história é marcada só por mocinhos e bandidos. Se você pedisse a qualquer um dos presentes no estádio que apontasse um vilão para esta trama antes dela começar, a resposta seria uma só: Adriano. Sim, ele tem um currículo invejável para o papel, além de ser um ator renomado com passagens por grandes elencos da Itália, tem um histórico de brigas, manchetes de jornais, acidentes, alcoolismo e depressão que marcaram sua trajetória internacional onde recebeu o apelido de Imperador. Veio para o Brasil fazer uma ponta na trama são-paulina, mas logo estaria de volta para Milão. Como já dissera antes, nessa trama de noventa minutos tudo pode acontecer, e é justamente a arte do improviso que leva milhares de pessoas à platéia. E é ele, o vilão, que devolve ao torcedor são-paulino a tranqüilidade e a esperança de uma classificação sem muito sofrimento. Aloísio recebe na esquerda, corta o marcador e cruza na medida para Adriano empatar. Nem bem deu tempo do torcedor paulista comemorar e o Fluminense responde - e da forma mais inesperada para o são-paulino. Agora o papel de bandido sobraria para Rogério Ceni, justo o maior herói de sua torcida. Nem o mais pessimista dos torcedores imaginaria que ele ocuparia esse papel, mas a graça desse espetáculo está justamente no acaso. E assim, após lançamento de Conca, Dodô gira e chuta fraco, a bola passa por entre as pernas de Rogério e entra devagarzinho. O Fluminense estava novamente na frente. Mas essa grande peça chamada futebol não pode ser marcada apenas por dois ou três atores. Os coadjuvantes também entram O jogo seguia tenso, as duas torcidas não gritavam mais. Ambas olhavam para o gramado estáticas, só tinham forças para pedir a Deus uma ajuda. O torcedor do Fluminense pedia que um milagre derrubasse a muralha paulista; já o são-paulino pedia o impossível - queria que o tempo corresse mais depressa. Mal sabem eles que nesses momentos o relógio não anda. Cada segundo parece uma eternidade e a angústia só aumenta. Até que aos 46 minutos do segundo tempo, o Fluminense tem um escanteio pela direita. Thiago Neves cruza e a bola procura alguém para a consagração, para ser coroado como o mocinho da partida, pois com a proximidade do apito final não haveria mais tempo para algum outro personagem destroná-lo. E a bola finalmente encontrou seu herói. Caprichosa, não queria um qualquer para esse papel. Escolheu Washington, o artilheiro que há onze partidas não marcava e já havia deixado sua marca no início do jogo. Ali, naquele momento de êxtase do torcedor do Fluminense, pensei Sim, não podia ser outro o escolhido para o papel mais importante. Até porque, Washington já o desempenhara por natureza. Afinal, não é qualquer um que ouve que sua carreira está acabada por causa de problemas cardíacos e ainda assim encontra forças para lutar contra a doença meses depois de ver a imagem de Serginho desabando Ao ver aquele gol, desenhado de forma mágica, Nelson Rodrigues certamente o creditaria ao Sobrenatural de Almeida*. Quem mais seria capaz de marcar daquela forma, naquele momento do jogo? Pois bem, acreditar no improvável é a magia do futebol. Muitos davam como certa a classificação do São Paulo, mas o acaso resolveu pregar mais uma peça nos futurólogos da imprensa brasileira. Viva Washington. Viva o Sobrenatural. Viva o futebol. *Nelson Rodrigues dizia que quando um gol acontecia de forma totalmente não convencional, estranha, entrara em campo o Sobrenatural de Almeida, criando o gol mágico, também chamado de "gol espírita".
Escrito por Danilo Neves às 12h10
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A decepção de Melão
Melão sempre foi repreendido por causa de sua paixão por futebol. O garoto assistia todos os programas esportivos possíveis e imagináveis. Enquanto seus amigos tinham o gosto pela leitura despertado pelas histórias em quadrinhos, ele preferia ler notícias de futebol, principalmente às de seu time do coração. A mãe o recriminava, dizia que ele devia procurar o que fazer em vez de “cuidar da vida de jogadores de futebol”, pois enquanto ele ficava o tempo todo em frente à TV assistindo todos os programas de debates esportivos, os jogadores estavam ganhando milhões.
Isso não deixava de ser uma verdade, mas a mãe jamais entenderá que, ainda que inconscientemente, aquilo era o que Melão queria fazer quando crescesse: ser jornalista esportivo. “Cuidar da vida de jogadores” seria o seu ganha pão. Nessa busca por mais informações sobre futebol, ele conheceu a revista placar. Revista essa que era chefiada por Juca Kfouri, jornalista esse que anos mais tarde tornaria o seu referencial no jornalismo, mas isso será contado em outra história. Voltemos à ligação do garoto com a Placar. Seu primeiro contato com a revista ocorreu quando ele fora com o pai a um sebo comprar livros didáticos que a escola pedia. Enquanto o pai pesquisava com o atendente os livros da lista, Melão folheava algumas revistas. Se deparou com uma Placar datada do ano de 1983. Na capa, um homem com o rosto ensangüentado erguia uma taça. Era Hugo de Leon, capitão do Grêmio, erguendo a taça de Campeão da Libertadores. Ele não sabia explicar o motivo, mas aquela imagem ficou gravada em sua mente.
Saindo da loja, passando em frente a uma banca, pediu ao pai que comprasse a edição do mês para ele. Era a primeira de muitas que ele ainda compraria. Ele passou a guardar o dinheiro que ganhava para comprar lanche na escola para toda semana comprar a nova edição. E assim fez por longos anos. Sua coleção acompanhou algumas mudanças da revista, a principal delas a modificação no formato e em sua periodicidade. A reformulação não o agradou, exceto pela seção de fotos de artistas que vestiam a camisa de um clube revelando seu time do coração. A primeira coisa que ele procurava na revista era quais famosos torciam para o Corinthians, e quando a edição vinha sem um corintiano se decepcionava.
Depois de alguns anos, Melão voltou ao sebo onde teve seu primeiro contato com a revista. Mas dessa vez a visita era por outro motivo. Um pouco desmotivado com o novo rumo da revista, que havia deixado de lado a cobertura jornalística que por décadas a consagrou, ele vendeu toda sua considerável coleção para comprar um videogame novo.
Passado algum tempo, a revista não emplacou e voltou ao formato antigo. O garoto, já crescido, viu sua profecia sendo concretizada: Entrou na faculdade de jornalismo, e tinha na revista não só aquela imagem que o marcou na infância, mas também uma espécie de resistência do verdadeiro jornalismo, aquele feito sem apelação nem sensacionalismo. Mas nem tudo é o que parece. Nem mesmo a sua revista preferida resistiu a “nova tendência mercadológica”.
E sua maior decepção aconteceu logo depois que se formou. Uma matéria com o título “Por que Casagrande sumiu do ar?”, escancarou para todo o Brasil o drama de Walter Casagrande Júnior, então comentarista da Globo e ex-jogador de futebol. Casão, como é conhecido, é dependente químico e há alguns meses estava internado numa clínica especializada para se livrar do vício. Placar, sob o pretexto de informar aos leitores o paradeiro do comentarista, esmiuçou toda a vida privada de Casão, revelando detalhes do seu contrato com a Globo, como o alto salário que ele ainda recebia da emissora, e colocando fotos de um acidente automobilístico que o comentarista se envolvera alguns meses antes, no qual estava, supostamente, alcoolizado.
A ligação de Melão de com o comentarista é dessas que nasce sem nenhum motivo aparente. Casagrande sempre foi dos seus grandes ídolos, mesmo sem o garoto jamais o ter visto jogar. A veneração ocorria porque desde pequeno Melão ouvia falar de uma tal Democracia Corintiana e de sua importância para a política do país que vivia sob a ditadura militar. Casagrande era um dos idealizadores do movimento corintiano e participou ativamente das Diretas Já. O garoto, mesmo sem saber bem o que a palavra Democracia significava, se orgulhava em torcer por um time que fez algo inédito e que marcou a história do esporte mundial, como diziam os jornalistas esportivos.
Sua decepção não foi pelo fato de ver um dos seus ídolos envolvidos com droga, e sim, pelo fato de ver o veículo que considerava uma espécie de “Último dos Moicanos”, praticar o mesmo jornalismo barato que era praticado na maioria dos outros veículos. A tristeza foi ver cair por terra toda à esperança que tinha em um jornalismo sério, sem o apelo do mercado em função da notícia.
Mesmo assim, Melão não desiste de sua da profissão. Muito pelo contrário. Admira e se espelha em alguns nomes, que, ainda que poucos, representam toda integridade e comprometimento com o leitor. Prática essa que ele conheceu, e aprendeu a respeitar, ainda criança, folheando suas primeiras “Placares”. “Deixar que os fatos sejam fatos naturalmente, sem que sejam forjados para acontecer. Deixar que os olhos vejam os pequenos detalhes lentamente. Deixar que as coisas que lhe circundam estejam sempre inertes, como móveis inofensivos, para lhe servir quando for preciso E nunca lhe causar danos, Sejam eles morais, físicos ou psicológicos...” Escrito por Danilo Neves às 05h56
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O primeiro amor de Melão...
Era uma tarde de sábado ensolarada e Melão, junto com seu pai e irmãos, ia pela primeira vez a um estádio de futebol. O garoto não escondia a euforia. Mal dormiu na noite anterior, tamanha ansiedade. Antes do jogo, ainda na Praça Charles Miller, frente ao portão principal do Pacaembu, ele já se arrepiava com o barulho da bateria e os cantos da torcida. Instantes depois, dentro do estádio, Melão veio às lágrimas pela primeira vez naquele dia. Não entendia direito o motivo, mas a entrada do seu time em campo, a explosão da torcida e as bandeiras alvinegras tremulando o emocionavam. Certamente aquela imagem jamais sairia de sua cabeça e aquele dia se tornaria inesquecível. Assim como a expressão do seu pai sendo obrigado a tirar a camisa pelos torcedores. Também pudera, quem em sã consciência vai a um jogo do Corinthians com uma camisa verde? Próximo do fim do jogo, enquanto o Corinthians vencia por - É, Tupãzinho! É, Tupãzinho! É, Tupãzinho! Justo o gol do seu maior ídolo ele não pôde ver ao vivo. Mas tudo bem, ele já tinha muita história pra contar. A conversa com os amigos durante o recreio da escola na segunda-feira seria recheada por passagens daquele dia. Ele queria cantar para todos o grito que não saiu da sua cabeça e que ele sabia que o acompanharia pelo resto de sua vida: - Ô, ô, ô, ô, ô, ô... Corintiano, maloqueiro e sofredor... Graças a Deus! Ah, e como era sofrido torcer por um time. Melão tinha apenas sete anos, mas com certeza já sabia o que era sofrer por amor. Naquele mesmo ano, o fatídico 1993, ele esteve muito perto de ver pela primeira vez seu time campeão. Sim, a primeira, pois apesar de lembrar do título Brasileiro de 90, ele era muito novo. As lembranças eram em volta da festa e das tirações de sarro junto com o irmão mais velho sobre o seu outro irmão e tios são-paulinos. Agora era diferente, ele já era um apaixonado por futebol. Na primeira partida da final do Paulistão contra o Palmeiras, Mas o inesperado aconteceu. Na partida da volta, - O título estava nas mãos, como deixamos escapar? – se perguntava. Não se conteve. Mas não era um chorinho qualquer. O garoto se debulhava na cama, chegava a soluçar. Deitou na cama e dali não queria sair por dias. A mãe, na esperança de consolá-lo, soltou a frase que aprendeu a odiar: - Meu filho, não chora! É só um jogo! Não, não era só um jogo. Ninguém jamais entenderia o que ele sentia, nem tampouco era só um jogo que estava perdido. Aquilo doía de tal forma que o pobre garoto adoeceu e ficou dias sem ir à escola. Algo bom, afinal, ele não agüentaria quieto as gozações dos amigos palmeirenses. Com certeza receberia uma suspensão por atacar um de seus colegas de sala. Não à toa, recebera o apelido de Tonho da Lua pelos irmãos. O menino era mesmo desses que não levam desaforo pra casa. Mas, mal sabia que sentiria por mais vezes aquela dor inexplicável. Anos depois, contra o mesmo Palmeiras, novamente uma derrota. Dessa vez a eliminação da Libertadores. Dessa vez com 13 anos, teve a mesma reação de quando tinha sete. Deitou na cama e chorou. Mas nada que possa ser comparada à dor do dia 2 de dezembro de 2008. Apesar da má fase de seu time, ainda acreditava que a mística da camisa, a garra de São Jorge ou sabe se lá o quê, não permitiria que o Corinthians caísse, afinal, isso só acontecia com time pequeno e ele era grande demais para isso. Esse foi seu erro. Talvez se durante o ano todo não tivesse tentado se enganar, a dor seria menor. Mas não foi e ele não estava preparado para senti-la. Aconteceu, mas dessa vez não tinha sua cama para correr e chorar. Estava no trabalho e não era mais um garoto de sete anos, mas ainda assim não se conteve. Não agüentou ver a festa dos rivais comemorando o dia mais triste de sua vida. Queria xingar todos, mas não teve forças. Foi à varanda, sentou no chão e chorou. Recebeu o telefonema de uma amiga solidária com sua dor. Naquele dia esqueceu o profissionalismo e pediu a um amigo que fizesse o trabalho pra ele, pois não tinha cabeça para mais nada. Dessa vez, ouviu de muitos a frase que mais detestava. Aliás, muitas vezes discutiu com amigos que desmereciam aquele sentimento. Diziam que aquilo não era amor. Amor é aquilo que você sente pelos seus familiares, pela namorada, pelos amigos, mas aquilo não. Isso no máximo é uma paixãozinha, brincavam. Depois da primeira ida, Melão fora mais dezenas de vezes ao estádio, mas por causa do trabalho ficou pouco mais de um ano longe das arquibancadas. Até que semana passada, contra o São Caetano, ele voltou a sentir a mesma emoção que sentiu naquele jogo contra o Inter. Inclusive a reação quando o time entrou foi a mesma. Ou melhor, a falta de reação. Melão ficou estático, olhando o gramado, sentindo a pulsação da torcida como há quinze anos e confirmou o poder que aquela emoção lhe causava. Ali, teve certeza de seu sentimento e então se perguntou: Se isso não é amor, o que seria? "Não consigo nem dizer tudo o que sinto
Escrito por Danilo Neves às 06h20
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Adeus, Rei!
Na última segunda-feira, 28 de abril, o samba de São Paulo anoiteceu mais triste. Um dos seus maiores representantes partiu. Maior não por causa dos seus mais de 120 quilos distribuídos em pouco mais de 1m80. Sua grandeza residia no seu coração, na sua humildade e, principalmente, na sua garra na luta em prol da nossa cultura. Paulo Telles era desses homens que impunham respeito pelo seu porte físico, mas bastavam cinco minutos de conversa para que toda essa imagem de fortaleza desmoronasse e aquele ar soberano desse lugar a um senhor chorão e emotivo. Tive o prazer de conhece-lo pessoalmente no ano passado na ocasião de um livro que fazia com uma amiga sobre personagens do Carnaval paulistano. Nosso contato com ele aconteceu meio por acaso. Conversando com uma amiga sobre a dificuldade de encontrar pessoas com histórias interessantes para serem personagens, ela falou que conhecia um senhor que havia sido Rei Momo do Carnaval paulistano por inúmeras vezes. Minha reação foi imediata.
- Você conhece o Paulo Telles?
- Esse mesmo – ela respondeu. Eu estudei com a filha dele. Na nossa primeira discussão sobre personagens, chegamos ao seu nome. Mas a falta de contato direto com ele e a correria para terminar o livro nos fez desistir. Mas num golpe do destino, seu nome voltou a pauta no momento em que mais precisávamos. O fim do ano se aproximava e tínhamos apenas um personagem definido. No mesmo dia essa amiga realizou tudo. Ligou para o Paulo, explicou o projeto do livro e passou o número dele para que eu entrasse em contato. Assustado, temeroso, tímido, ou sei lá o que, liguei. Confesso ter ficado assustado com a imponência que aquela voz rouca transmitia. Passados alguns minutos, pude perceber que tudo isso não passava de impressão. Marcamos um encontro para o dia seguinte na quadra da X-9. No dia, cheguei no horário marcado. Já Paulo, alguns minutos atrasados. Pude notar sua importância e carisma no momento de sua chegada à escola. Todos, sem exceção, que estavam na quadra, o cumprimentaram com muito carinho e respeito. Entre os presentes, seu filho Thadeu, na época Rei Momo do Carnaval paulistano. Ele me pediu desculpa pelo atraso e demos inicio a entrevista. Aquela era a nossa quarta entrevista para o livro, mas desta vez eu estava sozinho. Por problemas de saúde em sua família, minha companheira não pôde ir. Nas outras entrevistas me protegi nela. Era ela quem dava início, quem apresentava o trabalho, quem fazia as primeiras perguntas até que eu me aclimatasse e perdesse a vergonha para dizer algo. Dessa vez era diferente. Eu estava ali, sozinho diante dos dois, precisando dar início a conversa sem saber por onde. Nervoso e gaguejando, expliquei nosso projeto e pedi para que ele contasse sua história no samba. Ele sorriu, suspirou, olhou em meus olhos e disse: - Xiiii... Quanto tempo esse seu gravador grava? Pois acho que vamos ficar algumas horas falando aqui! Ele então pediu para que eu conduzisse a entrevista com seu filho antes, pois este teria uma reunião em alguns minutos. Acatei a sugestão e comecei com Thadeu. A pergunta foi a mesma feita anteriormente ao pai. Na resposta já era nítido o brilho nos olhos do pai. Thadeu falava da importância de seu pai na sua formação e na sua hitória com o samba. Falou, falou e o pai dava sinais que choraria a cada resposta. E foi justamente assim que conduzimos a entrevista até Thadeu se retirar. Pronto, agora era a vez de Paulo falar dele e de sua ligação com o samba. Assim seguimos por mais de uma hora de entrevista em que pude conhecer o lado humano daquele homem que conhecera há poucos minutos e que, apesar do pouco convívio, já admirava. Aquela previsão de que ele choraria a cada resposta se concretizou. Paulo chorou quando falou do dia em que o filho foi coroado, ao lembrar da netinha sambando à frente da bateria, e também ao falar da escola. Perguntei o que a X-9 representava em sua vida. Ele foi sucinto e enfático. - A X-9 é tudo em minha vida.
Então parou, olhou para uma fantasia que ainda estava em processo de confecção e desabou Mas o ponto alto da entrevista, que também me levou às lágrimas, foi quando ele tirou do dedo um anel de brilhantes, rubis e esmeraldas e deu para que eu segurasse. O anel, segundo ele, representava tudo o que ele viveu dentro do samba. Visivelmente emocionado e com a voz embargada, Paulo começou a cantar uma samba composto por Edson e Aloísio e imortalizado por Alcione. Na seqüência, revelou o desejo de passar seu anel para o filho Thadeu, mantendo, assim, viva sua história no samba por mais um longo tempo. Depois de mais uma hora e meia de conversa, agradeço a atenção de Paulo, desligo o gravador e começo a me despedir. Ele me agradece pela lembrança e começa a me dar alguns conselhos. - Pô, senti que você estava meio nervoso no começo. É normal isso, mas não pode acontecer. Você é jornalista. Você não pode ter toda essa timidez. Expliquei que aquela era uma das minhas primeiras entrevistas, ainda estávamos nos adaptando com a idéia de produzir um livro, e, de quebra, não tive o apoio da minha parceira. - Ok. Mas da próxima vez quero ver você com mais desenvoltura então – brincou. E assim ficamos por mais meia hora, conversando sobre tudo, até, enfim, ir embora depois de mais de duas horas de conversa. Saí da quadra eufórico, liguei para minha parceira e disse. - Conseguimos mais um personagem. - Mas ele tem história? – ela retrucou. - Pô, e como! No dia seguinte montamos a história. Ela também se encantou com as passagens contadas por ele e não foi nada difícil a produção. Aliás, acho que esse foi o capítulo mais fácil de se feito. Paulo deu para nós, no dia da entrevista, o capítulo pronto, com todo um roteiro a ser seguido, tivemos apenas o trabalho de transcrevê-la e monta-la. Depois de aprovada pela nossa orientadora, levei, junto com minha amiga que o contatou, a história para seu aval. Como da primeira vez, fui recebido com muito carinho por ele e por sua esposa, dessa vez em sua casa. Dei o texto para que ele lesse e vivi ali um dos melhores momentos na produção desse livro. Ver aquele homenzarrão emocionado por ler em algumas linhas a história de sua vida foi impagável. Ao perceber que trocamos o nome de sua mulher no texto ele não perdeu o bom humor e brincou. - Assim você me complica. Você conta no livro que minha mulher é ciumenta e para acabar comigo você troca o nome dela. Aí não dá, né? – disse gargalhando. Depois dessa entrevista, nosso livro, que estava emperrado, deslanchou. Motivado, talvez, pela alegria, pela força e pelos conselhos de Paulo. Depois dele, mais quatro personagens nos ajudaram na construção do nosso trabalhoso objeto de desejo. Antes já havíamos conversado com Dona Cida da Vila Maria. Todos eles, além de personagens de um livro, se tornaram ídolos para nós. Cada um com sua particularidade, mas todos com suas histórias de amor ao samba que tanto nos motivaram. Rei, hoje pela manhã recebi a notícia da sua morte. Ainda meio sonolento pensei ser um sonho, aquilo não podia ser verdade. Levantei da cama e fui ver se confirmava à informação na internet. Aquilo era verdade, Rei. Você se foi e não pudemos agradecer toda força que nos deu naquele dia. Você não imagina sua importância na produção desse livro. Rei, fui ao seu velório na quadra da escola de samba que você ajudou a criar. Não tive coragem de me aproximar do caixão, não acreditava que ali, no mesmo local onde há alguns meses você me recebeu com tamanha alegria para contar a história de sua vida, seu corpo era velado. Guardo ainda, e sempre guardarei, a imagem daquele senhor alto, com brilho nos olhos, emotivo e sempre sorridente.
Às vezes as pessoas passam por nós e não temos a oportunidade de dizer o quanto elas foram importantes em nossas vidas. Foi assim com você, Rei. Não pudemos dizer o quanto sua atenção, seu carinho, seus conselhos, seu bom humor e seu carisma nos ajudaram. Fica aqui essa singela homenagem. Sei que é pouco diante de sua grandeza, mas era o mínimo que podíamos fazer nesse momento.
O sambista está dormindoEle foi mas foi sorrindoA notícia chegou quando anoiteceuEscolas, eu peço silêncio de um minuto...” Escrito por Danilo Neves às 20h41
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O triunfo de Melão
Em sua infância, Melão era daqueles garotos fanáticos por futebol. Lia tudo o que podia sobre o assunto, assistia todos os programas esportivos, jogava diariamente na viela de casa, ou então nas quadras do Colégio Faria Lima e no estacionamento do Bradesco. Melão recebera esse apelido de uma vizinha, pois se parecia muito com um candidato a deputado de mesmo nome. Os jogos marcados contra o time da viela ao lado eram sempre tensos e precedidos por dias de provocação, mas no sábado lá estavam eles pulando o muro do colégio ou do banco para a disputa do “contra”.
Melão, como já contado, era apaixonado por futebol, adorava praticar o esporte amado, mas por mais que praticasse não conseguia jogar bem. A bola vinha em sua direção e ele não conseguia domá-la. Ela sempre ia parar no pés dos adversários que acabavam marcando. Seus companheiros se revoltavam com sua falta de habilidade e o chamavam de perna de pau, mas como eles eram sempre em cinco, não tinham como tirá-lo da equipe.
Aquilo entristecia o jovem Melão. Nas peladas de rua, nas aulas de educação física, ele era sempre o último a ser escolhido na divisão dos times. Ele sempre fora o “café com leite” da turma. Mas seu amor por futebol era maior. Sua teimosia então, nem se fala.
Ele andava pelas ruas do bairro e sempre que encontrava algum garoto da viela vizinha era zoado.
- Lá vem o perna-de-pau! Coloca o pé na forma, seu grosso! Vou tomar tubaína à sua custas nesse sábado.
Apesar da revolta e da vontade de partir para cima dos garotos, ele se continha. Baixava a cabeça em tristeza e caminhava para sua viela. Lá chegando encontrou com os companheiros de time que lhe deram a notícia.
- Marcamos um contra com a viela do Queijinho e você vai ter que jogar. Vale cinco garrafas de tubaína.
Essa era sua grande chance. Uma vitória no sábado seria a resposta à altura aos moleques da outra viela. Na noite que antecedeu o contra ele mal conseguia dormir tamanha a ansiedade. Antes mesmo que seus amigos aparecessem em seu portão para chamá-lo, ele já estava na viela com a bola, treinando alguns chutes.
Os cinco se reuniram e partiram para a batalha. Sim, batalha, pois a cena lembrava uma dessas passagens de filmes de guerra onde alguns soldados partem rumo ao triunfo da guerra. Alguns metros depois da saída da base, lá estavam em frente ao muro do Faria Lima que separavam eles do front. Pularam o muro e lá estava a equipe rival já dando alguns chutes ao gol.
As duas equipes se cumprimentaram cordialmente, mas era nítido o clima de tensão que pairava no ar do ensolarado sábado. Definiram que o duelo seria disputado em dois tempos de 30 minutos, com pausa para beber água nos fundos do colégio.
Começa a partida. De um lado: Andrei, Melão, Michelzinho, Tica e Prê. Do outro; Guga, Tiaguinho, Pet, Rato e Fábio. Logo no começo da partida, Melão ávido por uma vingança contra os seus gozadores, pegou a bola e partiu para o ataque tentando marcar um gol, mas como lhe faltava habilidade, perdeu a bola para Pet que marcou o gol para o time da viela do Queijinho. Instantes depois, novamente Melão aprontou das suas. Cometeu pênalti desnecessário em Pet e os rivais aumentaram sua vantagem. Depois Melão falharia em mais um lance.
Resumindo. No intervalo da partida,
- Então manda ele para o gol. Pelo menos assim ele atrapalha menos o time.
Todos concordaram e voltaram para a partida. Mas o tempo virou totalmente. Da manha ensolarada a uma nebulosa tempestade. A partida quase foi adiada, mas o desejo das duas equipes em vencer falou mais alto e eles continuaram a partida.
Logo no início do segundo tempo, Prê, o mais habilidoso de todos os garotos, arrancou com a bola em seu campo de defesa, passou por todos os marcadores, deixou o goleiro na saudade e tocou para o gol. Nesse lance, Prê só não fez chover porque São Pedro já se encarregara disso. Ele ainda faria mais dois e empataria a partida. Passado os trinta minutos, o empate teimava em persistir e as duas equipes decidiram que o vencedor sairia numa série de disputas de pênaltis: Três para cada lado.
A viela do Melão começaria batendo os pênaltis. A primeira cobrança ficou sob a responsabilidade de Prê, mas como um Zico em quartas-de-final de Copa do Mundo, Prê foi para a bola e parou nas mãos do goleiro adversário. O futebol tem dessas coisas mesmo, um jogador vai de herói a vilão em questão de minutos. Mas, afinal, essa é a graça do futebol, a imprevisibilidade. Pelo lado da viela do Queijinho, Pet bateu e abriu a contagem. Michelzinho bateu e igualou a série. Rato então pega a bola, olha com um ar de deboche para Melão e parte para a cobrança. Ele encheu o pé, no meio do gol, o goleiro, que não escolheu nenhum canto, acabou defendendo no susto. Depois, Tica marcou e pôs o time de Melão pela primeira vez na frente.
Chegara o momento decisivo. Thiaguinho foi para a cobrança. Ele era o principal desafeto de Melão. Sempre que jogavam, os dois acabavam discutindo. Thiaguinho era desses moleques folgados, que debochavam de tudo e de todos, e sua vítima predileta era Melão. Foi ele quem disse ao garoto que beberia tubaína à custa dele.
A chuva caía incessantemente e a quadra do colégio já estava alagada, mas nada além da vitória importava para aqueles garotos. Melão lembrava dos conselhos da mãe quando o via triste após perder uma pelada e receber gozações pela sua falta de habilidade.
- O importante é competir, meu filho!
Ele nunca dera bola para isso. Só ele sabia o peso que carregava em suas costas por ser sempre o responsável pelas derrotas de seu time. Voltando a partida, Melão sabia que ali era sua chance de redenção e de calar a boca de todos que o criticavam. No meio da quadra, seus companheiros, ajoelhados, se abraçavam e rezavam. Talvez pedindo a São Pedro que um raio caísse sobre a quadra no momento da cobrança, e que o jogador, assustado, batesse para fora. Afinal, era mais fácil isso acontecer do que Melão defender. Mas nada o abalava naquele momento. Ele estava parado, olhar fixo nos olhos de Thiaguinho tentando intimidar o rival antes da cobrança. Ele bateu e Melão se esticou todo, no cantinho, e fez uma linda defesa. Ele não acreditava no feito. Corria em volta da quadra e gritava feito um louco. Os companheiros o abraçaram e passaram a jogá-lo para o alto, e assim fora, carregado, em triunfo, até sua viela. Com sua tubaína em mãos, nada mais importava para Melão naquele momento. Nem mesmo as broncas da mãe ao vê-lo entrar ensopado em casa encharcado todo o tapete.
O futebol tem dessas coisas mesmo, Melão, o café com leite, que vivera anos de execração por sua falta de intimidade com a bola, viveu seu dia de herói e descobriu naquele dia a posição em que jogaria futebol pelo resto de sua vida. E mais: sabia que nunca mais passaria pela humilhação de ser o último a ser escolhido, pois, agora, seria ele quem escolheria a equipe. “- Como a senhora explicaria a um menino o que é felicidade? - Não explicaria – respondeu. – Daria uma bola para que jogasse. (Pergunta feita por um jornalista à teóloga alemã Dorothee Sölle.)” (Futebol ao sol e à sombra, Eduardo Galeano)
Escrito por Danilo Neves às 15h55
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"Futebol é coisa para homem!"
Quem nunca ouviu essa frase? Nos últimos tempos ela ganha cada vez mais novos adeptos. Os mais conservadores resistem em aceitar mulheres de chuteira correndo atrás de uma bola. Mas é inevitável, elas estão conquistando seu espaço. Seja ele como árbitra, comentarista, repórter, bandeirinha, ou mesmo nas arquibancadas, não importa como, elas estão cada vez mais presentes. Nada mais justo, afinal, não somos o país do futebol? Nelson Rodrigues analisava um clube, uma partida através do seu destaque. Suas crônicas sempre tinham um personagem principal. Falemos então de Marta, canhotinha habilidosa, eleita por duas vezes seguida a melhor jogadora de futebol do Mundo e principal responsável pela quebra desse tabu que há anos toma conta do esporte. Aos 18 anos, a camisa 10 saiu de Recife onde atuava pelo Santa Cruz e foi tentar a sorte na Suécia. Sozinha, sem o apoio dos familiares, sem entender o idioma e sob um frio rigoroso, Marta brilhou. Logo em seu primeiro ano foi um dos destaques de seu clube e comandou a seleção brasileira a inédita medalha de prata olímpica e no final do ano foi eleita a terceira melhor jogadora de futebol do mundo, atrás apenas da americana Mia Ham, uma espécie de precursora do futebol feminino, e da alemã Birgit Frings, sua sucessora. No ano seguinte, novamente as três na disputa, dessa vez com Marta em segundo lugar. Em todas as eleições de melhor jogadora do mundo pela Fifa o prêmio foi conquistado ou pela americana ou pela alemã. Reconhecimento do futebol técnico e da força demonstrada pelas duas atletas. Mas em
No ano passado, na final do Pan-americano, Marta e suas companheiras realizaram o sonho que toda criança apaixonada deve ter tido em sua infância: jogou no Maracanã. E Não foi só isso. Jogaram no maior do mundo para um público de mais de 70 mil pessoas, que cantavam o orgulho de ser brasileiro a plenos pulmões. Orgulho esse que foi perdendo força com a falta de comprometimento dos homens com a camisa canarinho. Na partida contra as norte-americanas, show brasileiro para ninguém botar defeito. Regido pela maestra Marta a seleção goleou de forma incontestável: A graça, a leveza do futebol brasileiro estava de volta nos dribles de Martas; nas arrancadas fulminantes de Cristiane; nos chutaços de Renata Alves; na experiência de Formiga. Enfim, continuamos a ser, para alegria de Nelson Rodrigues, a Pátria Meses depois a seleção foi à China disputar o Mundial. Dessa vez com um tempero especial: a torcida de milhões de brasileiros que ainda estavam surpresos com o futebol apresentado por essas garotas. Nas primeiras fases o Brasil avança com certa facilidade pelas adversárias, inclusive, pelas donas da casa e candidata ao título. Mas o melhor ainda estava por vir. Nas semifinais, no dia 27 de setembro, contra os Estados Unidos, talvez a principal favorita ao título, o Brasil não tomou conhecimento das adversárias. Um inesquecível Marta é desses gênios que inexplicavelmente aparecem no esporte brasileiro. Quem imaginava que no meio da seca, no sertão de Alagoas, surgiria uma garota franzina com uma habilidade de deixar o rei do futebol de queixo caído? E mais: Jamais passou pela cabeça de qualquer brasileiro que essa garota, num país totalmente machista quando o assunto é futebol, sem respaldo algum das autoridades competentes, conquistaria o mundo. Marta é brasileira em sua essência, em sua história de vida. História de luta, garra e persistência. Não, esse não é mais um discurso ufanista. E, sim , um reconhecimento do Brasil que dá certo. Para a coroação da menina guerreira número um do Brasil, só mesmo uma final de Copa do Mundo. Na manhã do domingo 30 de setembro, o Brasil parou para torcer por suas meninas. Algo mágico acontece nesses manhas dominicais. Novamente o brasileiro frente à TV para ver a consagração de um ídolo. Dessa vez, uma menina franzina, apenas um 1,60m, mas com um talento de gente grande. Começa o jogo e, como já era de se esperar, Marta é implacavelmente marcada. Para qualquer passo que a brasileira dava em campo, duas alemãs a acompanhava. Logo no início da etapa final, a eficiente Prinz aproveita um rebote na entrada da área e abre o placar para as alemãs. O Brasil sente o gol e fica perdido As meninas do Brasil caem no gramado como derrotadas nessa batalha. Mas do outro lado do mundo, os brasileiros presentes nas arquibancadas fazem questão de mostrar que nessa guerra não há derrotadas. Muito pelo contrário. A seleção brasileira já saiu daqui do Brasil para o Mundial como vitoriosa, verdadeira campeã. Algumas das atletas conseguiram sair do Brasil e buscar espaço no mercado internacional, mas sua maioria ainda jogava aqui, não desistia do sonho de ser atleta profissional, mesmo sem o apoio da CBF, que prefere investir milhões no futebol masculino. Essas heroínas jogaram apenas por amor ao seu país e para dar um cala a boca nos machistas de plantão. Temos por natureza o dom de desmerecer o vice campeonato. Frases como “o vice é o primeiro dos últimos” são bordões previamente colocados e algumas façanhas de nossos esportistas acabam passando
Ainda no ano passado, nas vésperas do clássico Corinthians e São Paulo pelo returno do Brasileirão, Em meio à dramática campanha corintiana na competição, que culminou com o rebaixamento da equipe, Marta revelou ao Lance! ser torcedora do clube e que tinha o sonho de jogar um dia pelo seu clube do coração. Agora, pergunto eu, qual o torcedor corintiano que em meio aquele festival de pernas-de-pau que o time exibiu no ano passado não sonhava em ver a alagoana com a camisa 10 do clube? Imagine ela no lugar do Aílton com a 10 do time. Para encerrar com chave de ouro seu ano brilhante, Marta foi novamente à Suíça receber o prêmio de melhor do mundo. Ao seu lado, Kaká também recebeu o prêmio. Mas diferentemente das últimas idas a solenidade, a alagoana não é mais uma mera coadjuvante, passa a ter seu espaço, a ser reconhecida mundialmente. Graças a seus dribles, arrancadas e gols que tanto nos encanta. Marta pôs fim a uma das frases mais antigas e infelizes da história do futebol. Seria o futebol um esporte apenas para os homens mesmo? Esse ano temos Olimpíada, quem sabe nossas meninas não trazem o tão aguardado ouro no futebol. Tomara! “A Fifa deveria decretar que o dia 27 de setembro passa a ser o Dia de Marta. Porque Marta não se marca. Marta mata a bola como o quê. Marta mete a bola onde quer. Marta martela quem corre atrás dela. Marta mistura Pelé e Mané. Na Terra não há quem jogue como ela. Dona Marta, Marta dona de talento sem igual. Marta de Marte, a Marta é de morte, genial”. (Juca Kfouri) Escrito por Danilo Neves às 20h10
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“A tecnologia a serviço do futebol”. Será? Há alguns anos a discussão sobre a tecnologia tomar conta do futebol em favor do espetáculo tem sido tema preferido em várias mesas redondas. Falam em chips nas bolas para auxiliar o árbitro em lances polêmicos, dentre outras medidas. Particularmente sou contra isso. O futebol é um esporte universal e só faz o sucesso que faz por poder ser praticado, da mesma forma, seguindo suas 17 regras oficiais, tanto no estádio Wembley, em Londres, quanto no campo do Guapira, no Jaçanã.
Acredito que qualquer mudança na regra do jogo deva ser adotada em todos os lugares onde os jogos são realizados de forma oficial e tenho certeza que um jogo entre Penapolense x Santacruzene, pela terceira divisão do Campeonato Paulista, não terá um dispositivo eletrônico que acuse se a bola entrou ou não.
Mas, ultimamente, essas discussões ganharam um ingrediente a mais: as imagens das câmeras de TV. A rivalidade dos clubes agora vão além de campo. No pós clássico, em vez dos atletas personagens dos jogos, quem aparece para dar entrevista é o advogado do clube. Procuradores e membros do TJD (Tribunal de Justiça Desportiva) também dão sua palhinha esquentando ainda mais a discussão.
Dia desses, num desses programas esportivos da tarde, começou a discussão sobre o clássico. Nem bem mostraram os gols da partida e já começaram com um bate-boca sobre os lances polêmicos de arbitragem. Afinal, o gol é apenas um detalhe, não é mesmo? Assistindo ao programa, o dirigente da equipe derrotada liga e pede para entrar no ar.
- Eu quero dizer que fomos roubado. Perdemos de
Passado mais alguns minutos de programa, o dirigente continua a declarar toda a sua revolta, o dirigente da equipe rival liga e também pede a palavra.
- Eles vão mandar a fita para o tribunal? Bom, também vamos. Temos um lance em que um jogador deles dá um pontapé num jogador nosso.
Mais alguns minutos de discussão, agora com os dirigentes das duas equipes trocando acusações. Já chega a metade do programa e até agora nada de gols, dribles, ou coisas do tipo. Eis que um procurador do TJD resolve entrar no ar e dar seu pitaco.
- Nós do Tribunal já vimos a agressão, daremos entrada ao julgamento do atleta. Ele será enquadrado no artigo 253 por agressão física. Quanto ao outro atleta, não temos essa imagem, peço que o clube nos envie que o jogador rival também será julgado.
Depois de incessantes minutos de discussão, os dirigentes e o procurador saem do ar e os comentaristas, enfim, resolvem falar do jogo. Mas têm de ser breve, afinal, o programa já se aproxima do fim e ainda temos que ver o comercial da Tec Pix, a única câmera 5 em 1 do mercado.
Chega a segunda-feira seguinte, o dia mais aguardado da semana. Claro, porque agora torcedor de futebol vive duas tensões distintas. A primeira, no final de semana, é torcer para seu time vencer
Bom, começa o julgamento do atacante Kléber pela agressão
E já que estamos falando em circo, não é preciso dizer quem mais uma vez foi feito de palhaço, não é mesmo? Absurdo Esses dias o Globo Esporte exibiu uma matéria sobre os jogadores que extravasam na comemoração de seus gols. O programa fez uma leve critica aos jogadores que proferem alguns palavrões quando marcam e deixaram uma reflexão final aos atletas: “Lembrem-se, cerca de 20 câmeras filmam esse momento”. PQP. Vai tomar no %#&@#! O jogador agora tem que se preocupar com câmera quando faz o gol? Quanta frescura. Quem nunca soltou um palavrão quando marcou um gol, nem que seja numa pelada? Eu confesso não ter feito tantos gols na minha carreira, aliás, dá para contar nos dedos da mão esquerda do nosso presidente os que eu fiz, mas em todos eles soltei ao menos um “porra”!rs Absurdo II Ao ser perguntado sobre o que sabia sobre a seleção brasileira de 1958 o atacante Luis Fabiano deu a infeliz declaração. - Não sei nada, não era nascido na época. Das duas uma: ou é má vontade para com a imprensa ou ele é um tremendo idiota. Quem nunca viu as imagens do Rei Pelé chorando, aos 17 anos, depois de marcar o gol que dera o primeiro título mundial de futebol ao Brasil? Ou então, o gesto que foi imortalizado por Bellini, e copiado por todos capitães que o seguiram, de levantar a Taça sobre à cabeça? Há alguns anos, em entrevista ao programa Bola da Vez, da ESPN Brasil, o jogador Lugano foi perguntando se brincava de Obdulio Varela, capitão da seleção uruguaia campeã do Mundo em 1950, quando criança. Lugano respondeu: - Con Diós no se brinca! A resposta foi curta, mas mostra o quanto ainda temos que aprender em relação a respeitar e cultivar o nosso passado. Isso não só no futebol, mas na música, política... Crééééééu Esse final de semana, tive a curiosidade de ouvir o hit do momento: a música(?) Créu. Até então só conhecia o refrão e já que faz tanto sucesso queria conhecer a letra. Bom, para meu espanto esse lixo não tem nada além disso. Sim, pasmem, são três minutos de dar inveja a Vinicius, Toms, Chicos e Toquinhos da vida. Agora, não bastando a merda da “letra”, isso ainda tem uma coreografia deprimente que agora invade os gramados. Virou moda, todo mundo após um gol faz essa dancinha tosca. Lamentável. Termino com um trecho de uma coluna da Soninha, há algumas semanas, na Folha de São Paulo. “Acosta fez ontem dois gols pelo Corinthians. Um foi anulado incorretamente (o bandeira apontou impedimento que não havia). O outro, conclusão tranqüila de ótima jogada do Carlos Alberto pela direita, rendeu-lhe um cartão amarelo por "excesso" na comemoração (levantou a camisa, subiu no alambrado etc). Escrito por Danilo Neves às 17h09
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Pobre Cavalinho
Em ano de Olimpíadas decidi falar sobre o maior entendedor de diversas modalidades esportivas: o povo brasileiro. Somente ele é capaz de comentar, com tamanha “sobriedade”, sobre as piruetas de Diego Hipólito; quem melhor que o povo para analisar o salto triplo de Jadel Gregório; ou então, o desempenho de Tiago Pereira dentro das piscinas. Confesso ser fã do bom humor do torcedor nacional, mas, infelizmente, muitos atletas sofrem com a injustiça desses mesmos. Claro, porque como todos sabemos, brasileiro entende mesmo é triplos twists carpados, não é mesmo Daiane?
Quando a ginasta entrou na arena em Athenas, em 2004, junto com ela estava a torcida de milhões de brasileiros. A expectativa pela medalha de ouro era gigantesca, afinal, ela era uma das especialistas na prova de solo e vinha com resultados animadores nas últimas competições internacionais.
A quilômetros de distância da arena, em um boteco de São Paulo, um cidadão comentou com o dono do bar:
- Essa mina é de ouro! Pode anotar mais um ouro para o Brasil, essa é barbada!
Eis que Daiane começa sua apresentação, mas, talvez nervosa com tanta responsabilidade, trupica depois de uma pirueta e dá adeus ao primeiro ouro olímpico do país no esporte.
O torcedor, especialista no assunto, praticamente uma Nadia Comaneci dos tempos modernos, não perdoou o vacilo e deu seu pitaco.
- Eu já sabia! Essa Daiane é uma pipoqueira, isso sim!
Não contente, o cidadão foi mais além ainda na sua teoria.
- E digo mais: isso tudo é culpa desse Galvão Bueno! Nunca vi alguém tão pé-frio quanto esse cara – esbravejou o torcedor decepcionado.
Esse é só um simples exemplo das injustiças cometidas por boa parte de uma nação. Mas porquê você está escrevendo sobe esse tema sem pé nem cabeça, você deve estar me perguntando. Eu respondo. É que uma das maiores vítimas dessa injustiça se aposentou , sem o devido reconhecimento, recentemente. O auge da execração nacional sobre o pobre coitado aconteceu em 2000, nas Olimpíadas de Sidney. Ele, junto com seu companheiro, chegou à Austrália como uma esperança do país para trazer o ouro. Não chegou tão balado quanto à seleção de futebol comandada por Vanderlei Luxemburgo, é verdade, mas com o decorrer da competição e a série de insucessos dos brasileiros, a responsabilidade para a dupla só foi aumentando. Nunca o Brasil chegou com tantos candidatos ao ouro como nesse ano. Tínhamos o já citado time masculino de futebol, as duplas de vôlei de praia Zé Marco/Ricardo e Adriana Behar/Shelda, os iatistas Robert Scheidt (laser) e Torben Grael/Marcelo Ferreira (star), além de Guga, então número três do mundo. Ah, sem falar, claro, dessa dupla injustiçada.
Os dois haviam sido campeões mundiais de forma consecutiva nos últimos três anos, logo, entrosamento não faltava. O Brasil chegava ao último dia sem nenhum ouro, situação inadmissível diante de tanta expectativa. Os jornais do Brasil estampavam na capa: “A pátria de ferraduras”, alusão feita à famosa frase de Nelson Rodrigues em referência ao escrete canarinho “A pátria de chuteiras”.
Depois dos insucessos e a coleção de pratas de todos os candidatos ao ouro, chegou a vez da dupla entrar em ação e salvar a honra da nação. Rodrigo Pessoa e seu cavalo Baloubet du Rouet começaram a apresentação. Tudo ia bem, até que em um dos obstáculos o cavalo refuga. O cavaleiro não desiste, dá meia volta com Baloubet e tenta saltar mais uma vez, mas o temperamental animal se nega. A cena se repetiria mais uma vez e o conjunto seria eliminado da competição. Diante da triste cena, ao ver o ouro escapar de suas mãos, Rodrigo não se revolta com o companheiro de tantas conquistas e dá um tapinha carinhoso em suas costas como quem dissesse: “Valeu, campeão!”
Mas tal afronta ao orgulho da nação não foi perdoado aqui no Brasil. Baloubet foi chamado de amarelão para pior. A mãe do jovem alazão então, deve estar com as orelhas ardendo até hoje tamanhas foram as ofensas proferidas a ela. Bem que os xingamentos poderiam ter ficado no tradicional “Filho de uma égua!”. Mas não! O brasileiro foi além e ainda duvidou do caráter e do profissionalismo do pobre animal. Teorias e o mais teorias foram criadas. Quando um cidadão soube a sua nacionalidade não teve dúvidas.
- Esse cavalo é do Zidane. Isso é praga de francês – bradou o senhor ainda inconformado com a derrota do Brasil para a França na Copa do Mundo de 1998.
Sorte de Baloubet que após as Olimpíadas não veio direto ao Brasil. Pois já imagino como sua seria sua recepção no aeroporto. A massa enfurecida tomaria conta do saguão, com diversos sacos de pipoca, para atacar no pobrezinho.
Mas, se existe um deus que rege o esporte, esse deus é sobre tudo justo. Pois quatro anos depois, na Olimpíada de Athenas, o conjunto voltou a se apresentar. Dessa vez sob os olhares desconfiados de milhões de pessoas que não esqueceram do último insucesso
Recentemente, foi anunciada a aposentadoria do cavalo. No alto dos seus 18 anos, Baloubet decidiu parar. Poderia continuar por mais dois anos, idade considerada limite para o bom desempenho de um cavalo no esporte, mas preferiu sair no auge e não manchar sua brilhante carreira. Como prêmio por tanta dedicação ao esporte, Baloubet, agora, viverá a vida que todo cavalo sempre sonhou: a de um garanhão reprodutor.
"O brasileiro não está preparado para ser "o maior do mundo" em coisa nenhuma. Ser "o maior do mundo" em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade". (Nelson Rodrigues) Escrito por Danilo Neves às 05h39
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Quem é Romário?
Era um início de noite nublado na fria São Paulo. Na sala da casa da avó, um garoto e seus dois primos aguardavam, tomando refrigerante Maracanã, o começo da partida que muitos batizavam de “um jogo de vida ou morte” ou então “o jogo do século”, pois, caso perdesse, o Brasil passaria por sua maior humilhação: a de não se classificar para uma Copa do Mundo. No dia anterior ao jogo, o garoto perguntará ao tio quem era esse tal de Romário que todos falavam na televisão. Todos os repórteres de todos os canais só falavam nele. Nos jornais as manchetes diziam: “Romário, o salvador da pátria”. Mas até ali, o garoto não tivera muito envolvimento com o futebol, exceto pelas peladas disputada com os primos na viela da casa de sua vó. O tio, com um ar de esperança, respondeu a pergunta do sobrinho. - Romário é o cara que irá levar o Brasil para a Copa! Meio que insatisfeito com a resposta, o garoto resolveu esperar o dia seguinte para ter uma resposta para sua pergunta. Chegara, enfim, o grande dia. O inesquecível 19 de outubro de 1993. Há uns Na hora em que o Baixinho pisou o gramado do Maracanã, a massa ensandecida foi ao delírio. O garoto, cada vez mais atento, acompanhava pelos olhares fixos das câmeras cada passo do jogador. E pensava: - Esse é o tal Romário? Esse é o salvador da pátria?? Mas, nem tamanho para isso ele tem Inspirado - Olha o gol! Olha o gol! Gooooooooooooooool, é do Brasil!!!!!! RRRRRRRRRRRRRRRoomário. RRRRRRRRRRRRRRRRRRRomário número 11. O garoto delira. Comemora, abraça os primos e grita para a vizinhança inteira ouvir: - Romário, Romário, Romário.... Mal teve tempo para comemorar, e já aparece novamente o craque que naquele momento, pouco mais de uma hora depois do primeiro “contato”, já se transformara em seu grande ídolo. Mauro Silva rouba a bola no meio-de-campo e lança o atacante, que ganha na velocidade, passa pelo goleiro uruguaio e empurra para as redes vazias. O narrador se acaba na comemoração. - Gooooooooooooool, é do Brasil!!!!!! RRRRRRRRRRRRRRRoomário. RRRRRRRRRRRRRRRRRRRomário de novo. Que beleza, Romário... Pronto! Estava consolidada a história de amor entre o garoto e o futebol. Nunca mais esqueceria daquele momento, o dia em que um certo baixinho marrento tirou de uma nação o medo de não se classificar pela primeira vez à uma Copa do Mundo. O garoto, então, resolve fazer outra pergunta ao tio. - Não seria mais fácil se esse Parreira levasse o Romário desde o começo?. O tio, sem palavras, apenas balança a camisa positivamente. No ano seguinte, novamente na casa da avó, e cada vez mais fã de Romário, o garoto espera a entrada do time em campo para a estréia na Copa do Mundo. O tio entra na sala com um presente para o garoto. Ele abre e vibra de alegria com a camisa amarelinha, linda como a que os jogadores vestiam na TV. Mas com um detalhe inesquecível: Ela trazia o número 11 às costas. Já vestindo a camisa, ele vê o gol de Romário usando o biquinho da chuteira na vitória de - Acabou!! Acabou!!! É Tetra!! É Tetra!!! Passado alguns anos, o garoto foi junto com o pai levar o tio, o mesmo da camisa, ao aeroporto. Chegando lá avistaram diversos jogadores com um uniforme rubro-negro. Era a delegação do Flamengo, que acabara de derrotar o Corinthians, clube do coração do garoto, e que voltava para o Rio de Janeiro. Ele sacou um papel e uma caneta da mochila e se meteu entre os jogadores atrás de um autógrafo do ídolo. Soube pelos outros atletas que Romário não embarcaria pelo saguão como todos os outros, e sim por um outro portão. O garoto voltou para casa cabisbaixo, sem o autógrafo do Romário, apenas com a assinatura de outros jogadores não tão importantes como Beto, Lúcio, Iranildo, Junior Baiano dentre outros, mas nada que diminuísse sua admiração pelo craque da camisa 11. No mesmo ano ele foi ao estádio do Pacaembu com o irmão corintiano assistir a mais um jogo do seu time. A equipe adversária era justamente o Flamengo de Romário. Seria a primeira vez que ele veria o ídolo ao vivo. E não se esqueceu jamais daquele jogo, assim como não deve ter se esquecido o volante Amaral. Num lance pela linha de fundo, Romário deu um drible desconcertante no pobre volante que, por sorte, não teve a coluna quebrada, e deu um toque sutil para marcar. Essa era a primeira vez que o garoto via seu time perder e não ficava nervoso. Encantado com a atuação do ídolo, ele voltou para casa divido. Um pouco triste pela derrota, mas feliz por, enfim, ter visto, pessoalmente, do que era capaz aquele baixinho. O garoto hoje tem 21 anos, acaba de se formar em jornalismo e sonha em trabalhar com futebol, motivado, talvez, por aquele dia 19 de outubro de 1993. Continua fã incondicional de Romário, a ponto de batizar o seu cachorro de estimação com a alcunha do ídolo. Mesmo discordando de diversas atitudes do craque, como prolongar a carreira até aos 42 anos, jamais se esquecerá do dia em que foi “apresentado” ao baixinho. Já a camisa, ele ainda guarda com a esperança de um dia entregar ao seu filho e contar a história do dia em que se apaixonou por futebol.
Inesquecível...
Escrito por Danilo Neves às 14h30
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O adeus de um ídolo
“Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi” Ao som da música Emoções, do rei Roberto Carlos, Gustavo Küerten entrou na quadra central do complexo da Costa do Sauípe para dar inicio a sua turnê de despedida do Tênis. E, realmente, não faltaram emoções em seu adeus do torneio que ajudou a criar em 2001. Após perder para o argentino Carlos Berlocq por 2 sets a 0, Guga pegou o microfone para agradecer ao apoio do público e, às lágrimas, sentenciou. ─ Eu aproveito pra agradecer a vocês, e não é que eu não queira jogar mais. Desculpa, mas não consigo mais. Ovacionado pelos presentes, Guga deixou a quadra. Ele ainda voltará a jogar pelo Masters Series de Miami. Depois segue para o challenger de Florianópolis, Masters Series de Monte Carlo; Roma ou Hamburgo e finaliza no palco que o apresentou para o mundo todo: Roland Garros. A manhã do domingo 7 de junho de 1997 com certeza não sairá da cabeça de muitos brasileiros. O país, carente de um grande ídolo desde a trágica morte de Ayrton Senna, volta a acordar cedo para torcer. Na França, um magrelo desengonçado, jeitão de moleque e roupas extravagantes, atrai a atenção de milhões de pessoas no Brasil. Mesmo se entender muito da regra do jogo, o Brasil parou para ver não só o nascimento de um ídolo, mas também o cara que devolveria o orgulho de torcer a um povo. Com seu jeito extrovertido, e sua humildade rara de se ver, o Manezinho da Ilha passava a ser um dos tenistas mais queridos do mundo. No momento da conquista eu estava no estádio do Canindé, onde era realizado o extinto Bingo da Portuguesa. Além da preocupação com as bolinhas cantadas, os 15 mil presentes vibravam com o anúncio do resultado de cada game da partida pelo locutor do bingo. Ao final, com o anúncio da vitória por 3 sets a 0 sobre o espanhol Serji Brugera, foi lindo, e inesquecível, ouvir o coro de 15 mil vozes que anunciavam o surgimento de um ícone do esporte brasileiro. ─ Olê, olê, olê olê... Guga, Guga!!!! As discussões das manhãs de segunda-feira passaram a ter um ingrediente a mais. Agora, os torcedores não ficavam apenas nas gozações contra o rival que viu seu time derrotado. Iam além das teorias da conspiração contra o árbitro que não marcou um pênalti. Brasileiros agora se viam como especialistas do esporte da bolinha amarela. Falavam de smashs, aces, paralelas, revezes, sem o mínimo conhecimento. Somente um ídolo para fazer isso com uma nação. E Guga foi, e sempre será, um. Ele se manteria no topo por muitos anos, ganharia por mais duas vezes o Torneio de Roland Garros e em 2001 atingiria o ápice de sua carreira: a conquista do Masters Cup de Xangai, derrotando duas lendas do esporte: André Agassi e Pete Sampras. Mas, uma série de lesões no quadril, o impediram de se consagrar como uns dos maiores nomes na história do esporte. Foi comovente ver a sua luta para retornar as quadras. As críticas que recebeu durante toda a sua carreira é de um insensibilidade tamanha. Guga não precisa provar para mais ninguém o seu potencial, pois foi genial durante toda sua carreira. Atingir o patamar que ele atingiu em um esporte que não tem o mínimo de respaldo do governo nacional, é para poucos. Mas, infelizmente, Guga nasceu num país onde boa parte das pessoas não sabem respeitar seus próprios ídolos. Azar o deles... “Não entender a dor de Guga, não entender o sofrimento de Guga, não entender o prazer de Guga, não entender o esforço de Guga e não entender a despedida de Guga não é só não entender de Guga, é não entender a vida que, como a de Guga, é repleta de altos e baixos. A de Guga, aliás, muito mais de altos do que baixos”. Juca Kfouri Escrito por Danilo Neves às 15h27
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